Já tomaste antibiótico para uma gripe? Se sim, não resultou. E há uma razão muito precisa para isso.
Bactérias e vírus são dois tipos de agentes infeciosos completamente distintos, e confundi-los tem consequências reais para a saúde pública. Uma bactéria é um ser vivo completo: tem célula própria, metabolismo, material genético e vida independente. É capaz de se alimentar, crescer e reproduzir-se sem precisar de ninguém. Num único grama de terra vivem milhões delas, e a grande maioria é inofensiva ou até essencial para o equilíbrio dos ecossistemas e do nosso próprio corpo.
Um vírus é uma coisa completamente diferente. Não tem célula, não tem metabolismo, não come nem respira. É, na sua essência mais básica, apenas material genético encapsulado numa estrutura de proteínas chamada cápside. Sozinho, um vírus não consegue fazer nada. Para se replicar, precisa de invadir uma célula hospedeira e sequestrar a maquinaria biológica dessa célula, obrigando-a a produzir mais cópias do vírus.
Os antibióticos foram desenvolvidos para atacar estruturas específicas das bactérias: a parede celular, que lhes dá forma e proteção; os ribossomas, responsáveis por fabricar proteínas; e o sistema de replicação do seu ADN. A penicilina, por exemplo, funciona porque destrói a parede celular bacteriana até a bactéria colapsar. Estas estruturas são suficientemente diferentes das nossas para que o antibiótico as ataque sem nos prejudicar a nós.
Nos vírus, nenhuma destas estruturas existe. Não há parede celular para destruir, não há ribossomas bacterianos para bloquear. Dar antibiótico a uma gripe é, portanto, inútil.
Mas o problema não fica pela ineficácia. Tomar antibióticos sem necessidade médica contribui ativamente para uma das maiores crises de saúde pública do nosso tempo: a resistência antimicrobiana. Quando bactérias são expostas a antibióticos de forma repetida e desnecessária, as que sobrevivem são precisamente as mais resistentes. Ao longo do tempo, surgem assim as chamadas superbactérias, resistentes a vários antibióticos em simultâneo. Segundo um estudo publicado em 2022 na revista The Lancet, a resistência antimicrobiana foi diretamente responsável por mais de 1,27 milhões de mortes em todo o mundo no ano de 2019, e esse número continua a crescer.
Na próxima gripe, o conselho é simples: descansa, mantém-te hidratado e evita antibióticos sem indicação médica. Se os sintomas persistirem ou se agravarem, consulta um profissional de saúde. Não porque os antibióticos sejam perigosos em si, mas porque usá-los mal, no momento errado, tem consequências que vão muito além de ti.
Glossário
Vírus: partícula minúscula que não consegue viver nem reproduzir-se sozinha; precisa de invadir células de outros seres vivos para funcionar.
Bactéria: ser vivo de uma só célula, invisível a olho nu; a maioria é inofensiva ou útil, e só uma minoria causa doenças.
Cápside: camada protetora de proteínas que envolve o material genético do vírus, funcionando como uma espécie de casca.
Antibiótico: medicamento que mata bactérias ou impede que se multipliquem; não tem efeito sobre vírus.
Resistência Antimicrobiana: quando bactérias deixam de responder aos medicamentos que antes as matavam, tornando as infeções mais difíceis de tratar.
Superbactérias: bactérias resistentes a vários antibióticos ao mesmo tempo, comuns em ambiente hospitalar e associadas a infeções de difícil tratamento.
Fonte: Murray CJL et al. Global burden of bacterial antimicrobial resistance in 2019: a systematic analysis. The Lancet. 2022;399(10325):629–655. doi: 10.1016/S0140-6736(21)02724-0.

