Odisseu está sentado à beira-mar. Atrás, uma ilha paradisíaca e uma deusa que lhe promete a imortalidade. Ainda assim, chora. Dos dez anos tentando regressar a Ítaca, sete foram passados ali. Tinha quase tudo. Só não tinha o seu lugar.
A Odisseia voltou às conversas com a adaptação de Christopher Nolan, mas quase três mil anos depois ainda fala de uma coisa que conhecemos bem: pertencimento. Para muitos dos meus alunos, essa experiência começa aos 18 ou 19 anos. É especialmente neles que penso ao escrever este texto.
Há poucas semanas, o quarto ainda guardava autocolantes da infância, o tempero era o de casa e os amigos eram os mesmos de sempre. De repente, há uma cidade diferente, uma cama nova e uma sala cheia de desconhecidos.
Comecei a entender o rito que culmina na Latada depois de algumas aulas tentando descobrir por que tantos caloiros lutavam contra o sono enquanto eu falava. Felizmente, percebi a tempo que nem sempre a culpa era da aula (ah, as praxes…). Havia cansaço, e se calhar até algum excesso, mas em cinco anos dando aulas a quem acaba de chegar à universidade também fui vendo que aqueles jovens tímidos dos primeiros dias ganhavam vida aos poucos, deixando de ser pessoas sentadas lado a lado e começando a parecer uma turma.
Eu também sou deslocado. Há oito anos vivo em Portugal. Construí aqui uma vida de que gosto. Mas continuo com saudades de ir ao estádio do meu time, de visitar os meus pais num domingo qualquer.
Por isso, reconheço um pouco do que vivem. A casa continua onde sempre esteve. Os pais seguem longe. Mas, pouco a pouco, aquela cidade desconhecida deixa de ser só subidas e descidas intermináveis. Passa a ter histórias que já são deles e alguém para chamar quando é preciso. Ainda carregam consigo “o sossego de poder voltar”, como cantam os NAPA. A diferença é que agora há gente suficiente ao lado para empurrar um carro alegórico na Latada ou para dividir o peso da distância.
Integração e pertencimento não acabam com a saudade, mas, ao menos no início, ajudam a não senti-la sozinho.
Fotografia: AAUBI e RE FRAME visuals

